Entrevista exclusiva com o grupo “Fiel Fazendinha”: protestos, críticas e a luta por um Corinthians Feminino mais transparente

No último Derby disputado no Parque São Jorge, vencido pelo Palmeiras por 2 a 1, uma manifestação chamou atenção fora das quatro linhas. O grupo Fiel Fazendinha, criado por torcedores insatisfeitos com os rumos do futebol feminino do Corinthians, realizou um protesto com faixas críticas à diretoria e à gestão do elenco. A reportagem do Meninas do Timão conversou com exclusividade com representantes do perfil, que optaram por manter o anonimato.
O grupo nasceu da indignação de torcedores com o que consideram um abandono da modalidade, sem que os “reais culpados” sejam apontados.
“Por mais que Lucas Piccinato e Íris Sesso possam ter sua parcela de contribuição na queda de rendimento da equipe, acreditamos que o problema vai muito além de duas pessoas que aparentam ser apenas fantoches nas mãos de quem realmente comanda o departamento. Também nos incomodamos com as jogadoras passando ilesas das críticas, enquanto assistíamos partidas apáticas e de jogadoras sem raça e vontade de vencer“, adicionaram.
Situação na Direção
Íris Sesso, que assumiu o cargo de liderança do departamento após a saída de Cris Gambaré, é vista com complexidade pelo grupo, que considera as críticas que a gestora vem recebendo “acima do tom”.
“A impressão que dá é que a Cris nunca preparou a Íris para assumir o cargo, apenas recomendou o nome e sucesso na nova caminhada”, relataram.
Apesar de reconhecerem seu esforço em renovações importantes, como a de Duda Sampaio e Vic Albuquerque, além da venda da zagueira Dani Arias, que gerou receita ao clube, o grupo cobra mais firmeza da gestora.
“Ela precisa tomar mais responsabilidade e falar com a torcida, mostrar que realmente tem alguém ocupando a diretoria”, afirmaram.
É válido ressaltar que na noite de terça-feira, 22 de abril, a diretoria sofreu uma mudança. Trata-se da chegada de Carlos Roberto Elias ao cargo de diretor estatutário, posição hierarquicamente superior à de Íris Sesso. Embora fosse designada como diretora em publicações do Alvinegro, Íris exerce, na realidade, a função remunerada de executiva.
Técnico Lucas Piccinato: questionamentos, mas com cautela
O trabalho do técnico Lucas Piccinato também é alvo de críticas, sobretudo em relação à montagem do elenco, escolhas táticas e falta de rodagem.
“O trabalho do Lucas Piccinato não é perfeito. A montagem do elenco desse ano é questionável e sabemos que ele participou disso. As alterações durante os jogos costumam piorar o time, principalmente nos confrontos mais difíceis. […] Estamos em abril e ainda não sabemos qual a base titular, o que faz parecer que o time não tem identidade”, disseram sobre o comandante.
No entanto, o grupo pondera que a troca de treinador neste momento pode não ser a melhor opção.
“Pela gravidade do que tem acontecido extracampo, não nos sentimos confortáveis em puxar “Fora Piccinato”. Inclusive, uma troca de treinador agora é uma oportunidade perfeita para a presidência abafar os bastidores e não dar explicações sobre o que está acontecendo“.
“Talvez o que falta para ele é convicção. Quando entender que quem comanda a equipe é ele, as coisas comecem a evoluir gradativamente”, completaram.
Elenco apático e desconectado da torcida
A relação do grupo com o elenco também passa por cobrança, que relatou episódios de desprezo com a torcida.
“As atletas recém chegadas parecem respeitar mais a torcida e a camisa do que quem já conhece o Corinthians. […] Temporada passada, após sofrerem críticas, o elenco saiu de campo sem cumprimentar a torcida presente em Bragança Paulista e, em algumas ocasiões, o técnico quem tomou a atitude de chamar o elenco para agradecer“.
Uma das faixas que seria estendida no último jogo trazia o dizer “As Mansas”, uma crítica direta à postura das atletas.
“Elas não são o nosso principal alvo, mas cobraremos enquanto a raça não entrar em campo e nem o orgulho de defender o Corinthians”, afirmaram.
Protestos barrados na entrada da Fazendinha
Durante a partida contra o Instituto 3B no último sábado (19), pelo Brasileirão Feminino, membros do grupo e outros torcedores foram impedidos de entrar com faixas, bandeiras e materiais visuais.
“A situação era totalmente anormal e notamos que poderia ser por causa dos protestos”, relataram. Segundo os integrantes, os próprios policiais disseram que a ordem era barrar apenas símbolos relacionados a torcidas organizadas — o que não era o caso.
“As faixas estavam prontas. Quando vimos que estavam barrando torcedores, optamos por não entrar com medo do que poderia acontecer dentro do estádio. Mesmo que tivéssemos tentado, a segurança estava reforçada e dificilmente teríamos tempo de colocar as bandeiras na grade. […] Ficou ainda mais nítido quando percebemos que o jogo do masculino não passou por essa proibição. Isso aconteceu apenas na Fazendinha”, destacaram.
Questionamentos à gestão Augusto Melo
Entre os alvos mais frequentes dos protestos está o presidente Augusto Melo. O grupo questiona a falta de investimentos, a ausência de respostas públicas e o desinteresse pelo futebol feminino.
“Temos muitos questionamentos referentes ao Augusto Melo. O que ele tem feito de melhoria? Quando confrontado no Dia da Transparência sobre o futebol feminino, ele nem soube responder.”
Eles lembram que promessas de campanha, como a reforma da Fazendinha, seguem inacabadas.
“[…] A impressão que temos é que ele está mais preocupado em se manter no cargo e tem dado pouca ou nenhuma atenção ao departamento”, criticaram.
Futuro do grupo e compromisso com o clube
Apesar das tentativas de silenciamento, o Fiel Fazendinha garante que continuará atuando.
“Pretendemos continuar pressionando diretoria, técnico, jogadoras e patrocinadores de maneira a manter o futebol praticado pelo Corinthians em alto nível como estamos acostumados. […] Nosso objetivo será alcançado quando vermos atletas dando a vida em campo e os bastidores bem organizados.“
O grupo também tem como meta reforçar a relação entre torcida e Fazendinha, casa do futebol feminino corinthiano localizado no Parque São Jorge. Para isso, lançaram a campanha #VemPraFazendinha, incentivando os torcedores a compartilharem suas experiências no estádio e ocuparem esse espaço.
“O Corinthians é do povo e o time não fecha sem a torcida”, concluíram.
O próximo compromisso do Timão é no sábado, às 15h30, diante do São Paulo. O confronto será no CT tricolor em Cotia, e representará o reencontro das equipes após protagonizar a final da Supercopa, em março, vencida pelo rival após as penalidades.